



Noutro dia, acordei tão cedo que nem me vi.
Escovei os dentes falando no telefone. Passei hidratante no rosto e penteei o cabelo no elevador.
Trabalhei, trabalhei.
Só fui encontrar comigo, na hora do almoço, no banheiro, através do espelho oxidado do restaurante a quilo.
- Nossa!!! Tô tão bonitinha hoje!
Pensei.
- Tô bonitinha mesmo!!! Assim ao natural, sem lápis, sem batom. Tô linda!
A conclusão me fez imediatamente feliz, em seguida simpática, logo após sedutora e, por fim muito segura, cheia de coragem pra paquerar caras interessantes que, como eu, também eram clientes do quilo. Saí do banheiro com a plena consciência do meu poder de seduzir qualquer homem que eu escolhesse.
Encaminhei-me pro buffet. Uma fome!
Percebi. Ser feliz dá fome. Estava avançando na feijoada quando me dei conta de que mulheres lindas e sedutoras jamais foram vistas comendo feijoada.
- Qual é? Quer quebrar o encanto?
Perguntei pra mim.
Desviei para as saladas, me servindo com parcimônia. Verdes e um microbife.
- Isso mesmo. Assim que se comporta o centro das atenções.
O rendimento foi total: paquera, sorrisos, troca de telefones que resultaram até em ligações, de fato. As conversas telefônicas foram seguidas por jantares, cinema, lingerie nova e orgasmos ocasionais. Temperos pra essa vida que não para: trabalho, trabalho, acordar atrasada, perder o ônibus, hora extra... Normal.
Hoje, quando caminhava pela rua apressada pra uma reunião, avistei, de relance através da vitrina, meu pai dentro de uma loja. A ficha foi caindo durante os meus próximos cinco passos.
- O que papai está fazendo aqui? Meu pai está morto!!!
Parei apavorada. Tinha que saber por que o espírito do meu pai estava ali, talvez quisesse me dizer alguma coisa. Caminhei de volta, cinco passos trêmulos e, cheia de coragem, levantei o rosto decidida a olhar de novo e encarar a situação, foi quando dei de cara comigo mesma refletida na vitrine.
- Nossa! Eu estou a cara do meu pai.
Pensei aliviada.
- Puxa, faz dois meses que eu não depilo o buço.
Horrorizada de vergonha.
- Estou um monstro. Tenho cara de homem.
Sempre fico constrangida quando vejo mães ao lado de filhas idênticas, pois penso que o cara que for paquerar a filha desistirá imediatamente após saber como ela vai ficar daqui a alguns anos.
- Estou envelhecendo. Fazer o quê?
A gente vai perdendo as curvas, colágeno...
- Mas será que eu não podia ter a sorte de envelhecer como uma mulher?
Tenho que envelhecer parecendo um senhor?
Tive vontade me atirar embaixo do primeiro carro, pra não ter que ver a coisa piorar, então senti um molhado quente entre as pernas.
- Claro, ridícula, é TPM. Pra quê eu faço tabelinha se nunca lembro de acompanhar?
Eu apostei alto.
Muito cedo na vida eu decidi que não faria plástica no nariz:
- Por que você não dá uma levantadinha na ponta do seu nariz?
- Não.
- É uma cirurgia tão simples e vai ficar tão bom.
- Não vou fazer plástica. Não quero mudar o meu nariz.
Foi uma decisão corajosa e transgressora, revelou o esboço da minha personalidade idealista, me fortaleceu. E depois, o meu nariz incomodava aos outros, eu mesma não tinha nenhum problema com ele e, sinceramente, não achava nada de tão esquisito ou inadequado no seu formato que justificasse a constante pressãozinha praticada pelos meus convivas, em prol de uma plástica para o meu nariz.
- Plástica? Pra quê? Não quero fazer uma plástica. Fazer, por quê?
- Porque vai ficar bom, mil vezes melhor.
- Mil vezes melhor quer dizer ficar bonita?
- Bonita você já é, a plástica vai te deixar “mais” bonita.
- Pra quê? Que inferno! Por que eu tenho que ficar mais bonita. Não entendo isso, que saco!
Não sei quanto tempo de fato, durou aquele bombardeio de “sugestões”. Pode ter ocorrido durante seis meses, um ano ou dois, mas pra mim parecia uma eternidade. Eu me sentia perseguida. Um dia mudei o foco e percebi que talvez não fosse só implicância dos mais velhos pra torturar a irmãzinha caçula, talvez fosse preocupação comigo. Oh, que amores! Tinham medo de que o meu nariz prejudicasse o meu futuro.
- Vocês acham que sem plástica eu corro o risco de me tornar uma encalhada? Não se preocupem, pois isso não vai acontecer. Saibam que o cara que vai me amar no futuro, melhor dizendo, saibam que o homem da minha vida terá outros valores, vai me desejar pelo que eu sou, pelo meu todo e irá, também, gostar do meu nariz. Se meu nariz afastar ou reduzir a possibilidade de ser amada por algum homem, vai ser ótimo! Perfeito! Eu vou ter certeza de que aquele homem, não é o homem da minha vida.
- !!!!!!!
- É exatamente por isso que eu não posso fazer essa plástica que vocês sonham que eu faça.
Dei um ponto final. Aceitaram meus argumentos e pararam de me azucrinar.
O que comecei a questionar, recentemente, foi a origem daquela minha certeza absoluta, repleta de justificativas procedentes e proféticas. Que fé era aquela minha, que me fazia acreditar que o “homem da minha vida” existia em algum lugar e que nós iríamos nos cruzar um dia? Embasada em que eu tomei a firme decisão de não fazer plástica no nariz, pois afinal de contas, na época, eu devia ter uns 11 anos.
Acho minha decisão foi embasada em obras como “O Patinho Feio”, “Dumbo”, “Branca de Neve”, “Jeannie é um Gênio”, “Banana Split”, etc...
Graças a educadores como os Irmãos Grimm, a dupla dinâmica, Walt Disney, Topo Gigio, Sidney Sheldon , Super Mouse e Garibaldo, entre outros, eu tinha a certeza de que no final haveria justiça, o bem venceria o mal e todos seriam felizes para sempre.
Lembro que depois de entenderam meus motivos, nunca mais tocaram no assunto. Quando a pressão externa acabou, eu ganhei espaço pra pensar em mim e não conseguia tirar da cabeça que meu nariz devia ser mesmo uma anomalia, caso contrário ninguém teria sugerido que eu fizesse uma plástica. Eu devia ser horrorosa e ainda não tinha percebido. Cada vez que me olhava no espelho dava conta de como eu era nariguda:
- Nariguda, talvez não, pois meu nariz não é tão grande, mas tem a ponta pra baixo, derretida... Eu pareço um avião concord.
Um dia a caminho da escola, quando atravessava a Praça Tamandaré, dei de cara com a anta que morava no mini zoológico e tive um insight :
- O nariz dela é igual ao meu.
Dali em diante, sempre que avistava a anta passeando ou nadando pelos lagos da praça eu percebia nosso parentesco. Criei um enorme carinho por ela.
Quando me apaixonei pelo Peter Frampton, pensei:
- Eu realmente tenho um nariz estranho, talvez eu deva, mesmo, fazer uma plástica...
Mas depois da decisão tomada eu não podia voltar atrás. E o meu orgulho? Até o Peter dizia “Oh, baby, I love your way”. Eu não podia dar o braço a torcer.
Algum tempo depois eu tinha um novo amor: Robert Plant. Eu lia Jorge Mautner, ouvia Rita Lee e Tutti-fruti, Led Zepellin, Novos Baianos, Janis Joplin, Frenéticas...Cry baby. Ziriguidum. Um belo dia resolvi mudar. Eu sei que eu sou bonita e gostosa. If the stores are all closed, with a word she can get what she came for.
- E daí, que meu nariz é esquisito? Grande merda. A sociedade vai me julgar em função do meu nariz? Se vai, pode vir que eu já estou preparada. Nada vai me atingir.
Ganhei a força de um exército. Fiquei enfrentativa. Entrava nos lugares com o nariz empinado, tão cheia de mim, que ninguém ousava me atacar.
Logo outros inadequados se aproximaram. Hoje pertenço a uma enorme turma de esquisitinhos. Nunca fomos perfeitos, o que com o passar dos anos se revelou uma grande dádiva.
Quem nasce, se torna ou aparenta ser perfeito, tem lugar garantido no “modus vivendi”. Um paraíso de conforto, por mais hipócrita que seja.
Já os imperfeitos, como não tem nada a perder, podem dar a cara pra bater, tem liberdade pra arriscar, pra errar, pra sonhar com o novo, pra fazer caminhos diferentes, pra tentar mais vezes, pra desbravar, pra descobrir e pra criar...
Sou bem feliz com o meu nariz.