quinta-feira, 15 de abril de 2010

Deu branco

Deu branco.
Grace Gianoukas

Era o escritor do momento, a revelação da literatura, seu primeiro livro fora premiado, a crítica o comparou a Guimarães. A mídia o adorava. Os convites vips não paravam de chegar, sua presença era aguardada em eventos. Seu nome fora parar numa revista feminina na lista dos 10 homens mais interessantes e disponíveis: “bonito , bem sucedido e inteligente”, dizia a legenda embaixo de sua foto.
Um dia foi convidado, por uma editora de renome a escrever um conto bem humorado sobre pânico para ser publicado numa coletânea de textos sobre o assunto. A coletânea reuniria os grandes nomes da literatura brasileira. Todos com seus Jabutis.
Adorou o convite, aceitou, claro. Era uma honra. Era louco por desafios, vivia procurando atiçar sua curiosidade, sua criatividade.
Teve uma idéia brilhante: 4 amigas de adolescência que se encontravam depois de 20 anos, todas tinham uma neurose, menos uma que por sentir-se saudável demais, procura um terapeuta e ao se conhecer melhor, começa a ter crises de pânico.

Escreveu, editou e mandou.
O editor retornou alguns dias depois, dizendo que não era bem isto, que faltava humor.
Releu então o texto e concordou com o editor: tem idéias que parecem brilhantes na hora e que depois a criatura se arrepende de ter levado adiante. Normal, tantos gênios da literatura já haviam renegado suas próprias obras.
Sem problemas, adorava desafios teve uma segunda idéia, esta era ótima : uma mulher com compulsão consumista, passa a ter crises de pânico cada vez que vê um outdoor, um vendedor ambulante.... E foge pra uma aldeia de pescadores isolada da civilização, vive feliz por alguns anos até que ouve ao longe o chamado do consumo: “pamonhas, pamonhas”....

Sentou no computador e escreveu um texto fluente, com boas piadas e conteúdo crítico.
Era mesmo uma revelação, até pra si mesmo.
Enviou entusiasmado por e-mail.
A resposta do editor desta vez foi: “está engraçadíssimo, mas isto é TOC (transtorno obsessivo compulsivo), não pânico....”
-Não? Como não é pânico?

Releu. E teve que admitir a contragosto, que o editor mais uma vez estava coberto de razão. Mas o conto era mesmo engraçadíssimo e ele era a revelação.
-Sem problemas, idéias não me faltam. Ele disse. Vou mandar 3 textos geniais pra você desta vez.
-Ok, disse o editor, mas preciso pra amanhã no fim da tarde.

Demorou pra dormir, pois as idéias não paravam de pipocar na sua cabeça. Acordou várias vezes durante a noite pra anotar as idéias que continuavam a borbulhar nos seus sonhos:
Tinha a história do cara que trabalhava na bolsa de valores e que um dia no meio do pregão, quando ia apregoar, travou, ficou com o grito entalado na garganta, paralisado no meio da algazarra foi empurrado pra lá e pra cá até se refugiar num cantinho, sacar o celular e ligar pra mãe vir busca-lo. O mico da mãe entrando na Bolsa, a gozação...
Tinha a história da atriz que desde pequena tinha medo de galinha e que foi contratada pra gravar uma campanha milionária, onde tinha que contracenar com um papagaio vivo pousado no seu ombro.
Tinha a da adolescente que começou a achar que, já que Deus era onipresente, e que ela tinha um anjo da guarda que a acompanhava, eles estavam vendo tudo que ela fazia: seus passeios, suas lições de casa, seus primeiros amassos. A sensação de ser observada o tempo todo foi lhe causando pânico, se viu incapaz até de fazer suas necessidades básicas na frente “deles” e resolveu então parar de comer e beber, foi ficando fraca e zonza, ai mesmo que começou a ver coisas.
A da bancária que tinha tanto medo da violência que passava o tempo todo rezando. Rezava desde que saia de casa, por todo o itinerário do ônibus e atendendo os clientes no caixa do banco, cada vez que dizia “próximo” esperava pelo pior, afinal um deles poderia ser um assaltante disfarçado. Tinha tanto medo que certo dia, cada vez que o cliente parava no seu guichê, ela desmaiava.
A dona de casa que um dia, assistindo TV, foi tomada pelo medo de seu aparelho estar com mau contato, podendo gerar um curto circuito,um incêndio e ela ali. Olhou pro poodle de estimação e achou seu olhar esquisito, agressivo. Sentiu os ácaros do tapete se reunindo para traçar um plano de ataque contra sua família. Só pensava em catástrofes. Imaginou então um carro desgovernado entrando sala adentro dirigido pelo Nelson Rubens que começaria a fazer fofocas sem parar. Idéias não lhe faltavam.

No dia seguinte, acordou, tomou café, leu o jornal e ligou seu computador .
Sentia-se especial naquela manhã, cheio de energia, e com seu aclamado talento de autor mais comentado pela crítica, tinindo pra desenvolver as sinopses que fizera durante a noite.
Clicou o mouse no ícone do Word, surgiu a tela branca, quando ia digitar a primeira palavra sentiu seu coração acelerar. “Muito café”, pensou. Respirou fundo e voltou as mãos para o teclado, elas começaram a suar frio, só conseguiu escrever “Era uma Vez”.
Paralisou...era uma vez, o quê?
A mulher com medo de galinha? O cara da Bolsa? A dona de casa e seus ácaros? Os clientes assaltantes? Suas idéias eram tão geniais, que nem sabia por onde começar. Imóvel em frente à tela branca do computador sua cabeça era um turbilhão de dúvidas:
- E se depois o editor viesse lhe provar por A mais B que eram textos óbvios e medíocres e que estavam fora do tema proposto? Que medo bobo, ele era ótimo, o autor revelação. O editor é que estava pegando no seu pé. Por despeito, afinal ele era uma unanimidade de crítica.
-Sim e a crítica, o que diria? Que ele era autor de um livro só, incapaz de escrever um simples texto, que dirá um novo romance. Seria arrasado publicamente, motivo de chacota nos círculos literários. O correio não traria mais convites vips, as mulheres passariam a ignorá-lo. Os editores estariam sempre em reunião e jamais retornariam seus telefonemas.
Releu as sinopses e achou todas as idéias descartáveis, horríveis, envergonhou-se só de pensar em mostrá-las pra alguém.
Por meia hora tentou, ter novas idéias, e nada. Branco total.
Imóvel na frente da tela. O computador lhe desafiava. Estava impotente e frágil. Nada de novo se revelava. Sua camisa estava encharcada de suor, aquela tela em branco lhe causava náuseas.

Desligou o computador.

Resolveu dar uma caminhada pra refrescar a mente e trabalhar mais tarde. Durante o passeio, avaliou o porque de tantas dúvidas:
“Natural, depois de tanto sucesso, é claro que se fica mais cuidadoso, mais exigente, parece que se tem a obrigação de acertar. É só uma crise de criação, não há ordem sem caos. Quando escrevi meu primeiro livro nem pensei na opinião dos outros, só na minha”.

Saindo do parque, de volta pra casa, parou na esquina, esperando o semáforo abrir para pedestres. Foi quando, do outro lado da calçada, deu de cara com o que parecia ser a congregação dos poodles, eram inúmeros, que se cheiravam e brincavam enquanto seus donos conversavam animadamente. Bastou um dos cães avistá-lo ali parado na esquina, pra dar o alarme, em segundos um batalhão de cachorrinhos latiam histericamente pra ele. O farol abriu, ele permaneceu onde estava mas gelou, quando guiados pelos donos aqueles gremlinzinhos começaram a avançar em sua direção. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come... Suava em bicas. Já podia ler as manchetes do dia seguinte: “Escritor revelação, morre vitima de poodles toy, perda irreparável pra literatura brasileira.”
Morto por poodles toy era humilhante.... Se fosse um dobermam...
Ao cruzar com ele os cachorrinhos, em silêncio, deram uma farejada no ar, e correram animados para o parque. Relaxou um pouco, mas logo teve nojo imaginando a quantidade de ácaros transportada por cada um.
Quando foi descer da calçada, pra finalmente atravessar foi tomado por um pensamento horrível: e se um carro desgovernado o atropelasse? E fosse socorrido pelo Datena, que ao invés de levá-lo logo pro hospital, fica a espera da chegada da equipe de TV.
Recuou, e decidiu fazer outro caminho, mas também parou quando lembrou que passaria por uma agência bancária. E, se justamente agora o banco estivesse sofrendo um assaltado e na fuga o pegassem como refém? Ficou ali na esquina, parado, cada pessoa que cruzava com ele lhe causava calafrio. Já tinham se passado mais de 40 minutos e ele não conseguia sair dali. E se algum de seus leitores o visse ali? E se passasse algum crítico no jogging matinal?
Precisava pedir ajuda...alguém que confiasse, que o protegesse. "Mãe", pensou.

- Vou ligar pra minha mãe e ela virá me tirar daqui.
- Mas como ligar? Tinha deixado o celular em casa e o único orelhão era na frente do banco, que a esta altura, ele tinha certeza, já estava cercado pela polícia que trocava tiros com os assaltantes.
Tentou pedir emprestado o celular de algum transeunte, mas um nó na garganta impedia as palavras de saírem...
Já estava ali, naquela situação, por um longo tempo, não sabia se a sensação esquisita no estômago era fome ou enjôo. Viu as crianças irem pra escola, saírem da escola.
Os guardas do parque, desconfiados o cercariam em poucos segundos e seria espancado pra confessar que era um tarado espreitando as criancinhas. Agora ele pensava no prazo de entrega do texto e na tela branca do computador.
Mas o pior é que estava paralisado bem debaixo da árvore, preferida das pombas. Que pareciam estar praticando tiro ao alvo em cima dele. Tinha perdido a conta de quantos tinham lhe acertado. Estava coberto de cocô de pomba.
-Devia estar fedendo, repulsivo, pensou. Mas nem assim conseguia se mover dali.
Era uma situação tão patética que lembrou do Chapolin Colorado:
- E agora quem poderá me proteger?
O Chaves apareceria vestido de joaninha heróica o resgataria.
Foi quando lembrou de apelar pra Deus, pro anjo da guarda. Apesar de sempre ter colocado Deus ao lado do Chapolin, na prateleira da ficção, rezou com uma fé que nunca antes tivera.
De repente, o semáforo fecha, e um carro para na sua frente começa a buzinar. De dentro carro gritam seu nome. “Estou salvo, obrigado Deus.” Tentou identificar o motorista, mas o insufilme era muito escuro. “É agora ou nunca”, conseguiu dizer em voz alta e correu para o carro.
Ao abrir a porta para entrar, deu de cara com o editor, que disse:
- Quer carona? Puxa, você malhou mesmo, tá encharcado de suor.
O que houve com você, disse tapando o nariz, estava filmando os pássaros?
Cara , te liguei o dia inteiro. Cadê o texto? Amanhã é o dead line.
Não deu pra segurar mais. Vomitou, na porta do carro, foi ficando zonzo e... desmaiou.

No hospital, pra onde foi levado pelo editor, foi avisado que teria que ficar internado alguns dias para fazer uma série de exames.
Ao saber disto o editor esperou o momento certo, e disse:
-Olha, nem sei como te dar esta notícia, mas o livro tem que entrar amanhã na gráfica. Vai ter rodar sem o seu texto. Mas eu tenho certeza de que vamos publicar uma segunda coletânea, ai você tá dentro, com certeza. O que você precisa? Um som, umas revistas, um laptop?
-Não obrigado. O escritor revelação tonteou só em lembrar da tela em branco.
-Te ligo, melhoras....

Sentiu um alívio imediato. Passaram as náuseas, a tontura.

Quando voltou pra casa, demorou alguns dias pra ligar o computador.
Hoje já encara frente a frente à tela e a preenche com novas idéias.
Está escrevendo seu segundo livro, sobre um escritor que recebe a encomenda de um conto sobre pânico...
Pra evitar transtornos, não atende mais os insistentes telefonemas daquele editor. Só de pensar nele tem enjôos.

A abobada no camarim......Ridícula!!!!

No camarim do Cabral sempre tem musica. Em 2008 a Xaron decidiu seduzi-lo, pegou a escova de cabelos e fez um showzinho surpresa, só pra ele... E eu? sou uma abobada....

video