"Terça Insana- Ano Dez" . Turnê 2011 - em Brasília
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
sábado, 3 de setembro de 2011
A infância, a morte, o lúdico e a vida real....
Que pena que eu não nasci com o dom de uma "encantadora de baleias"...
O mar que abraça a terra onde nasci me ofereceu a oportunidade de aprender, desde menina, algumas coisas valiosas como o a riqueza de possibilidades e a diversidade de formas com que a natureza se manifesta, a lei da impermanência de tudo o que existe, o respeito por tudo que é vivo, a insignificância do meu tamanho diante do universo e os intransponíveis limites do tempo, do alcance de visão e de compreensão do todo que esta insignificância me impõe; o poder de destruição da ignorância humana e a minha absoluta impotência diante do irremediável*.
Orientada por essa bússola particular de entendimentos parti da infância pra vida adulta.
Hoje, quando estava dando aquela olhada semanal no meu mapa pessoal de rotas e territórios, pra me localizar melhor, o ajuste das lentes de perspectiva foi atualizado para a seguinte versão: foco- 47anos,
direção- sentido da luz.
Eu consegui dar um upgrade na imagem e, pela primeira vez, enxerguei todo o desenho traçado pelos caminhos que desbravei e percebi que, ao utilizar minha bússola para atravessar o que, na época, me era desconhecido, eu escolhi o caminho do meio, cujo poder de destruição é quase nulo.
Eu descobri uma nova maneira de ir adiante: o ir remediável*....cujo impacto ambiental é restaurador.
(*)Eu não criei, nem descobri as possibilidades contidas na palavra "irremediável". A idéia original é de Caio Fernando Abreu, o título de seu primeiro livro, publicado em 1970, é "Inventário do Irremediável". Em 1995, a obra foi revisada por Caio, ganhou um hífen, e reeditada com o título"Inventário do Ir-remediável".
Que pena que eu não nasci com o dom de uma "encantadora de baleias"...
O mar que abraça a terra onde nasci me ofereceu a oportunidade de aprender, desde menina, algumas coisas valiosas como o a riqueza de possibilidades e a diversidade de formas com que a natureza se manifesta, a lei da impermanência de tudo o que existe, o respeito por tudo que é vivo, a insignificância do meu tamanho diante do universo e os intransponíveis limites do tempo, do alcance de visão e de compreensão do todo que esta insignificância me impõe; o poder de destruição da ignorância humana e a minha absoluta impotência diante do irremediável*.
Orientada por essa bússola particular de entendimentos parti da infância pra vida adulta.
Hoje, quando estava dando aquela olhada semanal no meu mapa pessoal de rotas e territórios, pra me localizar melhor, o ajuste das lentes de perspectiva foi atualizado para a seguinte versão: foco- 47anos,
direção- sentido da luz.
Eu consegui dar um upgrade na imagem e, pela primeira vez, enxerguei todo o desenho traçado pelos caminhos que desbravei e percebi que, ao utilizar minha bússola para atravessar o que, na época, me era desconhecido, eu escolhi o caminho do meio, cujo poder de destruição é quase nulo.
Eu descobri uma nova maneira de ir adiante: o ir remediável*....cujo impacto ambiental é restaurador.
(*)Eu não criei, nem descobri as possibilidades contidas na palavra "irremediável". A idéia original é de Caio Fernando Abreu, o título de seu primeiro livro, publicado em 1970, é "Inventário do Irremediável". Em 1995, a obra foi revisada por Caio, ganhou um hífen, e reeditada com o título"Inventário do Ir-remediável".
quarta-feira, 13 de julho de 2011
domingo, 16 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Cláudia Wonder se mudou da Terra, foi morar em outro planeta.
(escrito em 26 de novembro de 2010)
Cláudia Wonder se mudou da Terra, foi morar em outro planeta, onde se reunirá com a velha turma: Jean Genet, Caio Fernando Abreu, Cazuza....
Inteligente e cheia de atitude, Cláudia era atriz, escritora, colunista, cantora-compositora. Viveu lutando contra a caretice, a ignorância e a discriminação. Famosa entre os famosos e respeitada por sua militância pelos Direitos Humanos LGBT, seu trabalho obteve reconhecimento internacional.
Estava feliz e realizada... O espetáculo de sua vida terminou no auge, CLÁUDIA partiu linda e digna, como sempre...
Boa viagem minha querida amiga!!!!
Abaixo copiei a crônica "Meu Amigo Cláudia" escrita por Caio Fernando Abreu.
Meu amigo Cláudia
Maravilha, prodígio, espanto:
No palco e na vida, meu amigo Cláudia é bem assim:
Meu amigo Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível. A opinião alheia, então, torna-se detalhe desimportante. O que pode resultar – e geralmente resulta mesmo – numa enorme solidão. Dignidade é quando a solidão de ter escolhido ser, tão exatamente quanto possível, aquilo que se é dói muito menos do que ter escolhido a falsa não-solidão de ser o que não se é, apenas para não sofrer a rejeição tristíssima dos outros.
Bem, assim é meu amigo Cláudia. Eu não o/a conhecia pessoalmente. Ou melhor: conhecia do palco, onde Cláudia enlouquece cantando, falando e mostrando-se de uma maneira tão atrevidamente escancarada que fica linda, lindo. Só conversamos face a face, pela primeira vez, há três semanas. Parece não ter nada que ver, mas tem tudo: eu adoro Marina Lima. Há três anos, no Rio, conheci Sergio Luz, que atualmente dirige Marina. Éramos amigos de (Ah! Os bordados da vida...) Ana Cristina César, e foi através dela que cruzamos caminhos. Mas isso é outra história. Ou nem tanto. Há três semanas, Sergio me convidou para jantar com ele, Marina, Antonio Cicero e outras pessoas. Lógico que fui. E lá estava também Cláudia, no meio de uma mesa enorme. Não havia lugar para todo mundo. Sentamos numa mesa próxima. Pouco depois, Cláudia veio sentar-se conosco, porque havia um senhor na outra mesa – um senhor poderoso – que não parava de agredir Cláudia. Começamos a conversar. Acabamos no Madame Satã, onde raramente ou nunca, felizmente, existem senhores como aquele, agredindo pessoas como Cláudia. Por não existirem interferências assim no mundo particular do Satã, foi que Cláudia e eu, naquela noite, nos tornamos amigos.
Para aquele senhor, e para a maioria de todos os outros senhores do mundo, a presença de Cláudia deve representar a suprema transgressão, a mais perigosa das ameaças. Tanto que andam matando pessoas como Cláudia, na noite negra e luminosa de Sampa. É que meu amigo Cláudia incorporou, no cotidiano, a mais desafiadora das ambigüidades: ela (ou ele?) movimenta-se o tempo todo naquela fronteira sutilíssima entre o “macho” e a “fêmea”. Isso em uma sociedade em que principalmente o genital é que determina o papel que você vai assumir. Porque se você é homem, você tem de fazer isso e isso e isso – não aquilo. E se você é mulher, deve fazer aquilo e aquilo e aquilo – não isso.
Movendo-se entre isso e aquilo, meu amigo Cláudia conquista o direito interno/subjetivo de fazer isso e também aquilo. Mas perde o direito externo/objetivo de fazer nem isso nem aquilo. Tomamos vodca juntos na madrugada falando de solidão, essa grande amiga em comum de todos nós. Trocamos telefones, nos encontramos outra vez. Gosto tanto de seus olhos muito abertos, atentos a tudo, contemplando diretamente o mais de dentro de cada um.
Agora virei seu fã. Hoje, às 23h, Cláudia apresenta-se no Teatro do Bexiga. Se você quiser, também pode conhecer meu amigo Cláudia. A propósito, ela (ou ele – que importa, afinal, um ‘e’ ou ‘o’ ou ‘a’ no artigo ou pronome que precede o nome de uma pessoa?) autobatizou-se com o sobrenome Wonder, que em inglês quer dizer “milagre”, ou “prodígio”, ou ainda “maravilha”, “surpresa”, “espanto”. Todas essas sensações são justamente as que meu amigo Cláudia Wonder passa, no palco e na vida. E por tudo isso, me sinto muito orgulhoso de ser seu amigo.
Caio Fernando Abreu Caderno 2 - Estadão
Cláudia Wonder se mudou da Terra, foi morar em outro planeta, onde se reunirá com a velha turma: Jean Genet, Caio Fernando Abreu, Cazuza....
Inteligente e cheia de atitude, Cláudia era atriz, escritora, colunista, cantora-compositora. Viveu lutando contra a caretice, a ignorância e a discriminação. Famosa entre os famosos e respeitada por sua militância pelos Direitos Humanos LGBT, seu trabalho obteve reconhecimento internacional.
Estava feliz e realizada... O espetáculo de sua vida terminou no auge, CLÁUDIA partiu linda e digna, como sempre...
Boa viagem minha querida amiga!!!!
Abaixo copiei a crônica "Meu Amigo Cláudia" escrita por Caio Fernando Abreu.
Meu amigo Cláudia
Maravilha, prodígio, espanto:
No palco e na vida, meu amigo Cláudia é bem assim:
Meu amigo Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível. A opinião alheia, então, torna-se detalhe desimportante. O que pode resultar – e geralmente resulta mesmo – numa enorme solidão. Dignidade é quando a solidão de ter escolhido ser, tão exatamente quanto possível, aquilo que se é dói muito menos do que ter escolhido a falsa não-solidão de ser o que não se é, apenas para não sofrer a rejeição tristíssima dos outros.
Bem, assim é meu amigo Cláudia. Eu não o/a conhecia pessoalmente. Ou melhor: conhecia do palco, onde Cláudia enlouquece cantando, falando e mostrando-se de uma maneira tão atrevidamente escancarada que fica linda, lindo. Só conversamos face a face, pela primeira vez, há três semanas. Parece não ter nada que ver, mas tem tudo: eu adoro Marina Lima. Há três anos, no Rio, conheci Sergio Luz, que atualmente dirige Marina. Éramos amigos de (Ah! Os bordados da vida...) Ana Cristina César, e foi através dela que cruzamos caminhos. Mas isso é outra história. Ou nem tanto. Há três semanas, Sergio me convidou para jantar com ele, Marina, Antonio Cicero e outras pessoas. Lógico que fui. E lá estava também Cláudia, no meio de uma mesa enorme. Não havia lugar para todo mundo. Sentamos numa mesa próxima. Pouco depois, Cláudia veio sentar-se conosco, porque havia um senhor na outra mesa – um senhor poderoso – que não parava de agredir Cláudia. Começamos a conversar. Acabamos no Madame Satã, onde raramente ou nunca, felizmente, existem senhores como aquele, agredindo pessoas como Cláudia. Por não existirem interferências assim no mundo particular do Satã, foi que Cláudia e eu, naquela noite, nos tornamos amigos.
Para aquele senhor, e para a maioria de todos os outros senhores do mundo, a presença de Cláudia deve representar a suprema transgressão, a mais perigosa das ameaças. Tanto que andam matando pessoas como Cláudia, na noite negra e luminosa de Sampa. É que meu amigo Cláudia incorporou, no cotidiano, a mais desafiadora das ambigüidades: ela (ou ele?) movimenta-se o tempo todo naquela fronteira sutilíssima entre o “macho” e a “fêmea”. Isso em uma sociedade em que principalmente o genital é que determina o papel que você vai assumir. Porque se você é homem, você tem de fazer isso e isso e isso – não aquilo. E se você é mulher, deve fazer aquilo e aquilo e aquilo – não isso.
Movendo-se entre isso e aquilo, meu amigo Cláudia conquista o direito interno/subjetivo de fazer isso e também aquilo. Mas perde o direito externo/objetivo de fazer nem isso nem aquilo. Tomamos vodca juntos na madrugada falando de solidão, essa grande amiga em comum de todos nós. Trocamos telefones, nos encontramos outra vez. Gosto tanto de seus olhos muito abertos, atentos a tudo, contemplando diretamente o mais de dentro de cada um.
Agora virei seu fã. Hoje, às 23h, Cláudia apresenta-se no Teatro do Bexiga. Se você quiser, também pode conhecer meu amigo Cláudia. A propósito, ela (ou ele – que importa, afinal, um ‘e’ ou ‘o’ ou ‘a’ no artigo ou pronome que precede o nome de uma pessoa?) autobatizou-se com o sobrenome Wonder, que em inglês quer dizer “milagre”, ou “prodígio”, ou ainda “maravilha”, “surpresa”, “espanto”. Todas essas sensações são justamente as que meu amigo Cláudia Wonder passa, no palco e na vida. E por tudo isso, me sinto muito orgulhoso de ser seu amigo.
Caio Fernando Abreu Caderno 2 - Estadão
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